São Justino e a Origem da Missa
A Santa Missa é, antes de mais nada, a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, o grande evento Pascal. A Missa está ligada a Última Ceia, porém Jesus estava ali celebrando a Páscoa judaica. Desde cedo os cristãos foram organizando a sua celebração da Eucaristia juntando essas duas realidades.
Nessa descrição datada da primeira metade do século segundo, se delineia os principais elementos da Santa Missa tal com a conhecemos hoje. Percebe-se já naquele tempo a primazia do Domingo sobre o Sábado como o dia mais solene para a Santa Missa, devido a Ressurreição de Cristo. Esse texto de São Justino (†165), no qual se percebe o fervor eucarístico da Igreja nascente assim como o desejo de explicar os mistérios da Santa Missa.
Partes da Missa
A Missa é celebrada em duas partes: Celebração da Palavra e Celebração da Eucarística.
A primeira parte é mais missionária. A Celebração da Palavra é um pouco para todo mundo. Desde os primeiros cristãos, essa parte era mais aberta. Todo mundo participava da Celebração da Palavra, quando o padre terminava a homilia, um diácono surgia dizendo “Fora aos catecúmenos” (catecúmeno vem do latim - catechumenu e do grego - katechoúmenos - que é aquele que se prepara e se instrui para receber o batismo). Da expressão dita pelo diácono ao final da Celebração da Palavra ite, missa est - do latim, vocês estão dispensados, surgiu o nome Missa, para todas as celebrações cristãs.
Terminada a primeira parte da Missa, ficava apenas a comunidade dos fiéis para celebrar a segunda parte, que é a Liturgia Eucarística. Ou seja, a segunda parte da Missa é reservada apenas aos que realmente tenham fé e saibam o que está sendo celebrado, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
Como surgiu a tradição das partes da Missa?
A Páscoa judaica era celebrada fazendo a leitura das Sagradas Escrituras, em Lc 4, 16-19 Jesus participa de uma dessas celebrações na Sinagoga lendo uma passagem do livro de Isaías (Is 61, 1-2) e logo em seguida a explica. Dessa celebração judaica que vem toda a Liturgia da Palavra, que é toda a primeira parte da Santa Missa.
Logo em seguida, vem a Celebração Eucarística propriamente dita, o Sacrifício Eucarístico. É a refeição de Jesus Cristo com seus discípulos, porém, num conjunto maior, num conjunto de oração, de um sacrifício de louvor. Eucaristia, do grego Eucharístia quer dizer isso, ação de graças.
Desde o início os cristãos foram formando os seus textos de oração eucarística - não existia o Missal como hoje em dia -, mas as pessoas tinham um esquema mental de como rezar e isso nós herdamos, de certa forma, do povo judeu. A Liturgia Eucarística está totalmente montada na tradição judaica.
Tradição Litúrgica
A tradição litúrgica vem desde o ano de 155, quando São Justino escreve uma carta ao imperador romano Antonino Pio (138-161) descrevendo como é a Missa.
Nessa descrição, São Justino descreve que os cristãos se reúnem no dia primeiro dia da semana, o domingo, pois foi o dia da Ressurreição de Cristo (Mc 16,2). A palavra domingo vem do latim Dominicus, dia do Senhor (antes era chamado de dia do Sol, por causa dos deuses pagãos).
Segue a transcrição da carta de São Justino:
“No dia ‘do Sol’, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades, quer dos campos.
Leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos, ora os escritos dos Profetas.
Depois, quando o leitor terminou, o que preside toma a palavra para aconselhar e exortar à imitação de tão sublimes ensinamentos.
A seguir, pomo-nos todos de pé e elevamos nossas preces por nós mesmos (...) e por todos os outros, onde quer que estejam, a fim de sermos de fato justos por nossa vida e por nossas ações, e fiéis de sermos de fato justos por nossa vida e por nossas ações, e fiéis aos mandamentos, para assim obtermos a salvação eterna.
Quando as orações terminaram, saudamo-nos uns aos outros com um ósculo de paz.
Em seguida, leva-se àquele que preside pão e um cálice de água e de vinho misturados e ele tomando-os dá louvores e glória ao Pai do universo pelo nome de seu Filho e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma ação de graças em razão dos dons que dele nos vêm.
Quando o presidente termina as orações e a ação de graças, o povo presente aclama dizendo: Amém…
Uma vez dadas as graças e feita a aclamação pelo povo, os que entre nós se chamam diáconos oferecem a cada um dos assistentes parte do pão, do vinho e da água "eucaristizados" sobre os quais se disse a ação de graças, e levam-na também aos ausentes.
Este alimento se chama entre nós Eucaristia, não sendo lícito participar dele senão ao que crê ser verdadeiro o que foi ensinado por nós e já se tiver lavado no banho [batismo] da remissão dos pecados e da regeneração, professando o que Cristo nos ensinou. Porque não tomamos estas coisas como pão e bebida comuns, mas da mesma forma que Jesus Cristo, nosso Senhor, se fez carne e sangue por nossa salvação, assim também se nos ensinou que por virtude da oração do Verbo, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças – alimento de que, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossas carnes – é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. E foi assim que os Apóstolos, nas memórias por eles escritas, chamadas Evangelhos, nos transmitiram ter-lhe sido ordenado fazer, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: “Fazei isto em memória de mim, isto é o meu corpo”. E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: “Este é o meu sangue”, o qual somente a eles deu a participar…
Terminadas as orações e as ações de graças, todo o povo presente manifesta-se numa aclamação dizendo: Amém.
Erguemo-nos, então, e elevamos em conjunto as nossas preces. O presidente também, na medida de sua capacidade, faz elevar a Deus suas preces e ações de graças, respondendo todo o povo “Amém”.
Os que têm, e querem, dão o que lhes parece, conforme sua livre determinação, sendo a coleta entregue ao presidente, que assim auxilia os órfãos e viúvas, os enfermos, os pobres, os encarcerados, os forasteiros, constituíndo´se, numa palavra, o provedor de quantos se acham em necessidade.”
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Nota-se na carta de São Justino toda a estrutura da Santa Missa, estando presente a leitura das escrituras, a homilia, a oração eucarística e a distribuição da Sagrada Comunhão.
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