São José de Calasans
25 de agosto
"A vida sobre a Terra é uma luta” (Jó 7, 1).
Quem poderia negar a grande verdade imortalizada nestas palavras do Santo Jó? Estamos neste mundo em estado de prova, num campo de batalha.
É no combate às dificuldades que se abatem sobre o homem, ameaçando fazê-lo sucumbir, que ele alcança a verdadeira humildade. E ao se reconhecer necessitado do auxílio divino alcançará a promessa do Divino Redentor: “Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como Eu venci e Me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3, 21).
Assim foi a vida de São José de Calasanz: uma luta árdua e quase ininterrupta ao longo dos seus 92 anos de existência. Chamado à sublime vocação de educar as crianças para, por este meio, resgatar cidades inteiras, sua vida foi uma contínua batalha, tão mais dolorosa quanto as perseguições lhe advinham daqueles que mais obrigados estavam a apoiá-lo.
Ele nasceu no povoado espanhol de Peralta de la Sal, nos confins de Aragão e Catalunha — quiçá em 1556, diz a tradição —, em piedosa família fidalga, cujo pai era o administrador da cidade.
Recebeu as primeiras letras de seus pais e, por volta de dez anos, foi estudar gramática e humanidades em Estadilla.
Alto e robusto, tinha a compleição perfeita para seguir a carreira das armas, desejada pelo pai, mas José o convenceu a deixá-lo estudar filosofia, na Universidade de Lérida então considerada como base de todas as carreiras. Sua vivacidade e inteligência levaram-no a brilhantes resultados o que agradou muito ao pai, que o incentivou a estudar direito civil e canônico e cuja proposta vinha ao encontro de seu grande desejo de ser sacerdote.
Em 1575 recebeu a primeira tonsura das mãos do Bispo de Urgel, diocese à qual pertencia sua terra natal, em cerimônia na Igreja do Santo Cristo, em Balaguer, e fez voto de virgindade perpétua aos pés de uma imagem de Nossa Senhora.
Aos 20 anos foi estudar teologia na Universidade de Valência. A trágica morte de seu irmão mais velho fê-lo retornar para a casa paterna, onde teve de enfrentar novas batalhas. O pai desejava vê-lo perpetuar o nome da família e foi penoso para o Santo manter o voto que fizera. Nesse ínterim, faleceu também a mãe.
Vencidas todas as dificuldades, foi por fim ordenado sacerdote em 17 de dezembro de 1583.
Os primeiros anos de seu ministério estiveram cheios de importantes encargos que dizem muito acerca da excepcional maturidade, piedade e boa formação do jovem sacerdote.
Em sua Diocese de origem, além de desempenhar com habilidade delicados encargos pastorais e diplomáticos, dedicou-se com afinco aos labores próprios da vida sacerdotal: atendia confissões, pregava, ensinava o catecismo, visitava os hospitais e assistia os encarcerados.
Estando a serviço do Bispo de Urgel, começou a ouvir em seu interior uma clara voz:
— Vá para Roma.
E, em sonhos, parecia-lhe estar na Cidade Eterna, rodeado de crianças.
Contando com o apoio do seu diretor espiritual, partiu para Roma em fevereiro de 1592.
Ali começaram a se manifestar com mais brilho seus carismas. Liberava possessos, operava milagres e previa acontecimentos futuros por onde passava.
Cinco anos de trabalho pastoral em Roma o puseram em contato com a juventude pobre desta cidade. Aquelas crianças “não sabiam sequer as coisas necessárias para salvar-se”. Esta infância abandonada comprometia as gerações futuras. De meninos bem educados em sua tenra idade se espera homens bons todo o curso da vida: “Ensina à criança o caminho que ela deve seguir; mesmo quando envelhecer, dele não há de se afastar”.
Procurou alguém que pudesse abraçar esta causa, mas as escolas estabelecidas não dispunham de recursos e os mestres de profissão não podiam trabalhar sem salário. Um dia, caminhando pelas ruas romanas, ouviu aquela mesma voz interior que o conduzira ao centro da Cristandade:
— Olhe, José.
Virando-se, viu um grupo de crianças e a voz lhe repetiu esta frase do Salmo: “É a vós que se abandona o infortunado, sois vós o amparo do órfão” (Sl 9, 35). Estava delineada a vontade divina a seu respeito.
Era lento para tomar decisões, porém, uma vez convencido dos desígnios de Deus tinha grande firmeza de caráter e indomável energia para vencer os obstáculos que encontrasse.
Aconselhando-se e em meio às orações e mortificações, lembrou-se das sábias palavras de São Tomás: “Aqueles que foram eleitos por Deus para alguma coisa, Ele os prepara e dispõe de modo que sejam idôneos”. Não mais hesitou: toda a sua vida não havia sido senão uma preparação para esta obra.
Nascem as Escolas Pias no outono de 1597, no Trastévere, bairro pobre de Roma. Conseguiu a casa paroquial da Igreja de Santa Doroteia e, junto com mais três sacerdotes, começou a dar a instrução clássica — leitura, escritura, aritmética e gramática —, mas seu objetivo principal era a piedade e os bons costumes. Na primeira semana se apresentaram mais de 100 meninos.
Passavam-se os anos e as Escolas Pias se expandiram não só na Península Itálica, como em outros países.
Em 1617, o Papa Paulo V erige a Congregação Paulina dos Clérigos Regulares Pobres da Mãe de Deus das Escolas Pias — logo conhecida como dos Escolápios — com votos simples. Nomeado superior geral, o padre Calasanz fez os votos nas mãos do Cardeal Benedetto Giustiniani, representando o Santo Padre, e adotou o nome de José da Mãe de Deus.
Com a morte de Paulo V, em 1621, viajava de Bologna para Roma, a fim de participar do conclave, o Cardeal Alessandro Ludovisi, e hospedou-se na casa das Escolas Pias de Narni. Ali se encontrava São José, escrevendo as Constituições do Instituto, que previu a iminente elevação deste Cardeal ao Pontifício. Não errou o Santo: poucos dias depois ele foi eleito Papa sob o nome de Gregório XV. E em novembro deste mesmo ano aprovava as referidas Constituições, elevando a congregação a Ordem Religiosa, com votos solenes e perpétuos.
Não obstante, surgiram desejos de vingança da parte de uma minoria de religiosos que, por ambição e orgulho, não se enquadrava nas regras do instituto. Apesar de sua longa e santa vida, coalhada de milagres conhecidos, José chegou a ser preso pelo Santo Ofício e constituiu-se uma comissão cardinalícia para estudar o caso.
No meio das provações foi-lhe dado conhecer o porvir da Ordem, que seria destruída, mas renasceria para continuar sua missão na Igreja: “Espero que tudo o que se fez se desfaça com a ajuda de Deus, e que triunfará a verdade sobre a inveja. Tende constância, como os que amam o instituto, porque chegará o dia em que renascerá mais glorioso do que nunca”.
Sua única “vingança” consistiu em rezar por seus inimigos. “Nas grandes desgraças que nos vieram, seria grande loucura determo-nos nas causas segundas, que são os homens, não vendo a Deus que as envia para nosso maior bem”, disse em confidência a um de seus sacerdotes. “Quanto mais nos humilhemos, mais nos exaltará Deus”, afirmou nas vésperas da morte. Em seu processo de beatificação, declarou o Cardeal Crescenzi: “Não posso deixar de dizer que seu maior milagre foi a paciência”.
Em agosto de 1648, dois anos depois daqueles terríveis acontecimentos, chegou sua hora de despedir-se desta vida. A Providência o fazia beber o cálice das amarguras até o fim, pois lhe revelava todas as penúrias e dificuldades pelas quais passariam seus filhos espirituais nos próximos oito anos, até que a Ordem se restabelecesse. Contudo, Nossa Senhora o veio visitar e consolando-o prometeu auxiliá-lo em seu momento derradeiro, como o fizera em toda a sua vida.
No dia 25 de agosto de 1648 entregou sua alma ao Criador, multidões acorriam a vê-lo pela última vez e milagres se operavam em quantidade. A vox populi já o exaltava, antecipando o que a Igreja declararia 100 anos depois, ao concluir um processo com documentos e provas: José de Calasanz praticou virtudes em grau heroico.
Atualmente, existem outras 11 congregações religiosas dedicadas à educação que reconhecem ter encontrado sua fonte de inspiração na Ordem Escolápia. “A semente que ele semeou há 400 anos, frutificou e se estendeu por todo o mundo. As Escolas Pias hoje estão implantadas em 26 países de quatro continentes, e os conceitos de gratuidade e universalização do ensino que preconizam são aceitos em quase todos os sistemas educativos”.
Foi canonizado no dia 16 de julho de 1767 em Roma pelo Papa Clemente XIII.
É o padroeiro universal das escolas populares cristãs e das escolas públicas.
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Oração a São José de Calasans
Pai meu Calasanz
Meu mestre, luz e guia,
Olhai-me lá da glória,
Abençoai-me neste dia.
Alcançai-me do eterno
Inteligência e piedade,
O inteiro rendimento
à sua santa vontade.
Amém.
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