Do «Proslogion» de Santo Anselmo, bispo
(Cap. 14.16.26: Opera omnia, ed. Schmitt, Seccovii, 1938,
1, 111-113.121-122) (Sec. XI)
Que eu Vos conheça e Vos ame, para encontrar em Vós a minha alegria.
Encontraste, minha alma, o que buscavas? Buscavas a Deus e verificaste que Ele está acima de todas as coisas e nada melhor que Ele se pode pensar; que Ele é a vida, a luz, a sabedoria, a bondade, a eterna felicidade e a feliz eternidade; e que Ele é tudo isto em toda a parte e sempre.
Senhor meu Deus, meu Criador e Redentor, dizei à minha alma, sedenta de Vós, que outra coisa sois além do que viu, para que veja claramente o que deseja. Ela esforça-se por ver sempre mais, mas além do que já viu nada vê senão trevas. Melhor: não vê trevas, porque em Vós não há trevas; mas vê que nada mais pode ver por causa das trevas que há em si mesma.
Essa é verdadeiramente, Senhor, a luz inacessível em que habitais, e nessa luz ninguém pode entrar para ver-Vos claramente tal como sois. Eu não vejo essa luz, porque é excessiva para mim; e, no entanto, tudo o que vejo, é por meio dela que o vejo: como a nossa vista humana que, pela sua fraqueza, só pode ver por meio da luz do sol e contudo não pode olhar directamente para o sol.
A minha inteligência é incapaz de ver essa luz, demasiado refulgente para ser compreendida; os olhos da minha alma não suportam fixar-se nela muito tempo, porque são encandeados pelo seu esplendor, vencidos pela sua imensidade, confundidos pela sua grandeza.
Oh luz suprema e inacessível! Oh verdade plena e bem-aventurada! Como estás longe de mim, estando eu tão perto de ti! Como estás longe dos meus olhos, estando eu tão presente ao teu olhar!
Estás presente em toda a parte e eu não te vejo. Em ti me movo, em ti existo, e não posso alcançar-te. Estás dentro de mim e à volta de mim, e não te sinto.
Peço-Vos, meu Deus: fazei que eu Vos conheça e Vos ame, para encontrar em Vós a minha alegria. E se não o posso alcançar plenamente nesta vida, que ao menos me vá aproximando, dia após dia, dessa plenitude; cresça agora em mim o conhecimento de Vós, para que chegue um dia ao conhecimento perfeito; cresça agora em mim o amor por Vós, até que chegue um dia à plenitude do amor; seja agora a minha alegria grande em esperança, para que um dia seja plena mediante a posse da realidade.
Senhor, por meio do vosso Filho nos mandais, ou melhor, aconselhais a pedir, e prometeis que obteremos, para que a nossa alegria seja completa. Por isso Vos peço, Senhor, o que aconselhais por meio do nosso Admirável Conselheiro: possa eu receber o que em vossa fidelidade prometeis, para que a minha alegria seja completa. Deus fiel, eu Vo-lo peço: fazei que o receba, para que a minha alegria seja completa.
Entretanto, nisto medite o meu espírito e fale a minha língua; isto ame o meu coração e proclame a minha boca. Dessa felicidade prometida tenha fome a minha alma e sede a minha carne. Todo o meu ser a deseje, até que chegue um dia a entrar na alegria do meu Senhor, que é Deus trino e uno, Deus bendito por todos os séculos.
Amém.
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