São Thomas More
22 de junho
Nascido em Londres em 1478, Thomas tinha grande fama de homem íntegro, um juiz justo, culto e estimado pelos humanistas europeus, tanto que Erasmo de Roterdã, lhe dedicou sua obra "Elogio da Loucura"; era muito amado pelo povo, pela sua caridade; conhecido pelo seu senso de humor e sua elegante inteligência, como transparecem em suas obras e em sua vida.
Porém, ele era, acima de tudo, um homem de grande fé.
Em sua vida privada, frequentava os franciscanos, em Greenwich, e, por um período, na Cartuxa de Londres. Casou-se com Jane Colt, da qual teve quatro filhos. Ao ficar viúvo, casou-se novamente, esta vez com Alice Middleton. Como esposo e pai, dedicou-se à educação intelectual e religiosa de seus filhos, em sua casa, sempre aberta a amigos.
Em sua vida pública, Thomas trabalhou como membro do Parlamento e assumiu diversos cargos diplomáticos. Em 1516, escreveu sua obra mais famosa "Utopia". Como conselheiro e secretário do rei, comprometeu-se com a Reforma Protestante. Contribuiu para a elaboração da obra "A defesa dos sete sacramentos”. Uma ascensão irrefreável até chegar ao ápice: foi o primeiro leigo a ser nomeado Grão-Chanceler.
Em 1532, sua vida teve uma mudança determinante: Tomás pediu demissão. Assim, para a sua família, abriram-se as portas de uma vida de pobreza e abandono.
“Morro como servo fiel do rei, mas, primeiro, como servo de Deus”
Sua história entrelaçou-se com a vida do rei Henrique VIII: decidido de se casar com Ana Bolena, o soberano pediu ao Arcebispo anglicano de Cantuária, Tomás Cranmer, para declarar nulo e sem efeito seu casamento com Catarina de Aragão; em uma escalada de oposição, chegou até a pedir também para que o Papa Clemente VII aceitasse sua liderança como chefe da Igreja na Inglaterra.
Em 1534, o Ato de Supremacia e o Ato de Sucessão marcaram o momento decisivo. Tomás que já havia se retirado do mundo político não podia aprovar a decisão do rei e, acima de tudo, não queria abjurar à lealdade ao Papa.
Foi preso na Torre de Londres, enfrentou o isolamento, as pressões e o sofrimento com fé e serenidade. Escreveu diversas cartas comoventes, demonstrando sua fortaleza espiritual.
Levado a julgamento, manteve-se firme em seu silêncio e em sua recusa ao juramento.
A "conduta" do silêncio, que havia adotado, não foi suficiente para se salvar. Então, com dignidade enfrentou um processo, durante o qual pronunciou sua famosa apologia sobre a indissolubilidade do matrimônio, o respeito pelo patrimônio jurídico, inspirado nos valores cristãos, a liberdade da Igreja em relação ao Estado. Por isso, Thomas Morus foi condenado por alta traição e decapitado em 6 de julho. Após alguns dias, João Fisher, de quem era um grande amigo, também foi condenado pelas mesmas ideias. Desta forma, estes dois santos são recordados, juntos, pela liturgia da Igreja, no mesmo dia, 22 de junho.
Na manhã de sua execução, vestiu-se com sobriedade e rezou. Ao chegar ao local do suplício ofereceu sua vida a Deus. Sua última frase é uma das mais célebres do cristianismo: “Morro como bom servo do rei, mas primeiro de Deus.”
A consciência cristã reta, bem formada pela fé e pela razão, é uma das colunas da doutrina moral da Igreja. Thomas More viveu isso de maneira heroica. Diante da ameaça de perder cargos, bens e a própria vida, permaneceu fiel ao que sua consciência lhe dizia: que só Deus é o Senhor da Igreja e do matrimônio.
Seu exemplo nos recorda que os cristãos devem agir segundo a verdade, mesmo quando isso traz sofrimento. A consciência não é uma licença para fazer o que se quer, mas uma exigência para fazer o que é certo, à luz da fé. Para os fiéis que atuam na política, no direito e nas funções públicas, Thomas More é modelo de integridade e coragem.
O legado de São Thomas More
Em 1935, o Papa Pio XI o canonizou como mártir da verdade. Em 2000, São João Paulo II o declarou padroeiro dos estadistas e políticos, destacando seu exemplo de leigo que soube unir fé e vida pública. É também inspiração para todos os leigos que enfrentam desafios para viver sua fé em ambientes hostis.
Thomas More nos mostra que a santidade é possível em qualquer estado de vida. Ele santificou-se no matrimônio, no trabalho e na política, permanecendo fiel à oração, aos sacramentos e à verdade da fé.
Embora sua canonização tenha sido motivada principalmente por seu testemunho de vida e morte, há relatos de graças alcançadas por sua intercessão. O verdadeiro milagre, porém, foi sua coragem sobrenatural de se manter fiel a Deus em meio às pressões do mundo.
A obra “Utopia”
Escrita em 1516, Utopia é uma das obras mais conhecidas de Thomas More. Nela, ele apresenta uma sociedade fictícia ideal, refletindo sobre política, justiça, propriedade e religião. Embora o título sugira um ideal inatingível, a obra revela muito do pensamento cristão e ético do autor. É leitura recomendada para entender sua visão de mundo.
Thomas Morus foi um homem apaixonado pela Verdade, “admirado pela sua ‘integridade’, – afirmou Bento XVI, em seu discurso no Westminster Hall - com a qual teve a coragem de seguir a sua consciência, mesmo à custa de desagradar ao soberano, de quem também era ‘bom servidor’, de escolher servir primeiro a Deus".
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